sábado, 3 de julho de 2010

à sua leveza dominada

 Era naquela gaveta que ela trancava todos os segredos, mantinha-os salvos das ávidas algemas douradas, lá ela se refugiava da obrigação, revivendo os melhores segundos proibidos, quando ninguém a olhava. Fora ela era livre, e quando chegava em casa trancava a tudo na gaveta.
 Quando estava fora, tudo se invertia, ela trancava as algemas na gaiola, tudo o que tinha e amava, o que lhe trazia tantas responsabilidades, o que dava sentido a tudo, aquelas que haviam lhe cortado as asas, ela sentia a falta, mas ainda tinha as penas na gaveta.
 Ela amava a ambas, de jeitos diferentes, a liberdade das asas e a confidência das algemas, não tinham culpa alguma, eram apenas consequencias. Porém odiava o que tinha que ceder, não tinha mais as asas, mas se ainda as tivesse não teria as algemas. Então conciliava a liberdade com a doce prisão, escapando de uma quando sentia falta da outra. Combinando o imprevisível com a acomodação, ela seguia, era difícil, mas a mantinha satisfeita.

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